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Um campeão à medida

 

16h44 CEST

25/05/2026

O título de campeão nacional garantido pelo FC Porto de Francesco Farioli, a dois jogos do fim da Liga, a três pontos apenas do recorde de 91 pontos da equipa comandada por Sérgio Conceição em 2021/22, não merece contestação, por uma razão simples: nada abalou a convicção de quem desenhou à medida este plantel e esta ideia de jogo e depois celebrou o casamento entre um e a outra, mantendo a firmeza da aliança durante toda a temporada sem vacilar por um instante. A festa final começou na definição de um plantel que servia como uma luva àquilo de que o treinador precisava, continuou na passagem da noção, dos gabinetes da administração para os campos de treinos do Olival, de que este era um título fundamental para a estabilidade do clube, num ano de investimento brutal pós-alteração de liderança, e acabou na gestão inteligente dos meios à disposição, a maior responsável pela manutenção da frescura na fase determinante da época, quando os calendários apertam. Podia ter corrido mal? Podia. Mas só se corresse extraordinariamente bem aos outros. E isso também seria, em si, uma anormalidade.

A primeira anomalia da temporada está nos pontos que este FC Porto ainda pode somar. A equipa de Farioli só não fez os mesmos 91 pontos da de Sérgio Conceição, em 2022, porque depois de já ter perdido com o Casa Pia, antepenúltimo, respondeu com outra derrota contra o AFS, último e já despromovido, à certeza matemática da conquista do título, na penúltima jornada. As 28 vitórias, quatro empates e duas derrota só são igualmente batidos, no Dragão, nestes tempos modernos – ainda que em Liga de 16 equipas, portanto com menos jogos e menos pontos... – pelas 27 vitórias e três empates do FC Porto de André Villas-Boas, em 2010/11. Ora não é possível questionar o mérito de uma equipa tão vitoriosa como esta. E se este campeonato esteve em aberto até tão tarde foi porque o Benfica o acabou sem derrotas e porque, até ao decisivo desaire em casa com os Encarnados, na ressaca da eliminação europeia, contra o Arsenal, o Sporting seguia a cinco pontos dos Dragões, mas com um jogo a menos, portanto em condições de discutir a primazia. Aliás, tanto o Benfica como o Sporting somaram os mesmos 80 e 82 pontos que na época passada lhes valeram a discussão do troféu até ao último dia. Se o FC Porto foi campeão com antecedência, não foi por falha dos rivais. Foi por ter sido muito forte.

E é nesta altura que os portistas se indignam. Como é possível que, durante tanto tempo, se tenha andado a falar do fantasma do Ajax, em referência à perda, por parte da anterior equipa de Farioli, do título neerlandês do ano passado, depois de ter uma vantagem muito superior à que os Dragões tiveram em algum momento desta temporada? A questão é que, por muito que isso tenha sido usado por adeptos e comentadores afetos ao FC Porto para estimular a habitual veia de luta contra o centralismo, qual moinho de vento transformado em monstro motivacional, o debate fazia sentido. E se a primeira grande vitória do processo do treinador italiano está na capacidade para encontrar os intérpretes ideais para o seu futebol, a segunda, e não menos importante, encontra-se na maneira como cresceu com os erros de ano para ano. Em Amesterdão já não estoirou física e mentalmente o plantel, como tinha feito em Nice. No FC Porto voltou a gerir bem as cargas, nomeadamente pela rotatividade a que recorreu nos meses de Fevereiro e Março, e juntou-lhe a capacidade de incutir a resiliência mental que não há-de ser fácil num plantel tão renovado, sem rotinas de trabalho em conjunto além desta época e, por isso, sem grandes pilares de estabilidade a que se agarrar emocionalmente.

A vitória de Farioli começa no design do seu futebol, que é igual hoje ao que era em Nice, há dois anos – e ao que foi no Ajax, na época passada. Ritmo lento entre centrais, em construção, à espera do espaço que permita meter aceleração. Extremos sempre bem abertos, alargando o espaço interior para as combinações com os movimentos de apoio do ponta-de-lança para as entrelinhas. Laterais por dentro, formando com o médio-centro uma segunda plataforma de início de organização, de forma a dificultar a vida à primeira zona de pressão adversária, sobretudo se ela for só de dois homens. Contramovimentos rigorosamente aplicados entre os dois médios interiores, com um a baixar quando o outro avança, ou a vir dentro se o outro vai fora. Sem bola, inserção do médio-defensivo na linha mais recuada, que se defende a cinco sempre que tem de o fazer perto da sua área, controlando o jogo em bloco baixo quando isso é necessário. Primeira linha de pressão particularmente agressiva, no sentido de recuperar a bola tão perto da baliza adversária quanto possível, para diminuir o espaço que tem de fazer em transição para ataque até poder finalizar. E, sobretudo, alta voltagem nas tentativas de recuperação da bola – ou quando, em ataque organizado, esta entra num ‘acelerador’ dentro do bloco rival –, passando da lentidão entediante à velocidade extrema. A manutenção da ideia pode ser cristalização, se o treinador fica mais de um ano no mesmo ambiente – e esse é o grande desafio para 2026/27. Mas acaba por ser surpreendente para quem, como Farioli, está este ano em Portugal, mas esteve na época passada nos Países Baixos, há dois anos em França e há três na Turquia. Os técnicos adversários têm recursos para observar os modelos de cada adversário, sim, mas é normal que se adaptem melhor e mais rapidamente a uma realidade a que estão expostos em permanência no quotidiano.

Na perspetiva de Farioli, no entanto, quanto mais vezes e durante mais tempo se joga assim, melhor se domina a forma de jogar assim. O acerto extraordinário do FC Porto nos mercados de 2025/26 há-de ter muito que ver com isso, com o aperfeiçoar da noção do que o treinador quer do mercado. Quinze dos campeões nacionais foram contratados esta época – e, de todos, só o terceiro guarda-redes, João Costa, e o quinto defesa-central, Prpic, foram mais ou menos irrelevantes. Ao mesmo tempo, o extremo Karamoh, que veio livre, pois até estava sem clube, revelou-se o único falhanço. Mas a estrutura que acertou em cheio nos 100 milhões de euros que meteu nestes dois mercados de 2025/26 foi a mesma que não tinha acrescentado nada na temporada anterior, contribuindo para o fracasso de Vítor Bruno e, depois, de Martín Anselmi. Sete dos onze jogadores que somaram mais minutos em campo pelo FC Porto em 2025/26 foram contratações desta época, ainda que Gabri Veiga tenha chegado do Al Ahli a tempo de jogar o Mundial de clubes, no Verão passado. Os outros foram Alberto, Bednarek, Kiwior, Rosario, Froholdt e Borja Sainz. Em comparação, o FC Porto de 2021/22, a última equipa campeã no Dragão, tinha feito nove contratações em todo o ano, das quais nenhuma entrara no onze-base de Sérgio Conceição. Nem uma, para amostra. E isso, atenção, é mais normal do que o acerto total do FC Porto atual. O Sporting de 2025 foi campeão com seis reforços, dos quais só três (Rui Silva, Maxi Araújo e Debast) fizeram parte do onze-base. E em 2024 os Leões já tinham ganho a Liga com cinco novos jogadores, dos quais apenas Hjulmand e Gyökeres entraram nos mais utilizados. Quem mais se aproxima do FC Porto de Farioli no que respeita a uma revolução total é o Benfica de 2022/23, a equipa de Roger Schmidt, que ganhou a Liga depois de fazer 12 contratações. Mas só três entraram no onze mais utilizado – Bah, Aursnes e Neres. Teriam sido quatro, caso Enzo Fernández não tivesse saído em Janeiro, mas o total estaria ainda assim muito abaixo das sete novidades em onze deste FC Porto de Farioli.

O facto de quase todos os reforços terem sido um fit perfeito para a ideia de jogo do treinador permitiu mais uma coisa, que foi ganhar tempo no período de adaptação até ter a equipa a jogar um futebol de autor. O FC Porto anulou os efeitos perniciosos de uma revolução através desta identificação quase perfeita e, no início da Liga, já sabia bem ao que jogava. A ponto de ter começado a ganhar o campeonato em finais de Agosto, quando foi a Alvalade impor o seu jogo a um atónito bicampeão nacional, batendo o Sporting por 2-1 e ganhando avanço na tabela. As nove vitórias seguidas que somou no início de época, sete das quais na Liga – e sete delas mantendo a baliza a zeros –, mostravam bem ao que vinha este FC Porto, uma equipa que, ao primeiro empate (um 0-0 com o Benfica, na oitava jornada, a coroar de êxito o plano de contenção de Mourinho no Dragão), manteve na mesma os três pontos de avanço para o segundo, que já era, como foi durante quase todo o ano, o Sporting. E uma equipa que em toda a primeira volta perdeu apenas esses dois pontos. Se a primeira derrota, um 0-2 em Nottingham, na fase de grupos da Liga Europa, em finais de Outubro, ainda foi encaixada com um onze de gala, rapidamente o FC Porto respondeu ao apertar do calendário com o arrumar dos romantismos na gaveta e com a repetição do plano que o seu treinador já tinha elaborado na época anterior, no Ajax: a Liga Europa serve para rodar. Claro que não é possível fazer a mesma coisa na Champions – e esse vai ser mais um grande desafio à frente de Farioli em 2026/27. Não é igual jogar com o FC Utrecht, o OGC Nice, o Malmö FF, o Plzen e o Rangers, que foram os adversários do FC Porto em Novembro, Dezembro e Janeiro, ou fazê-lo com os gigantes da prova milionária. No mesmo período, o Benfica defrontou Leverkusen, Ajax, SSC Nápoles, Juventus e Real Madrid, e o Sporting jogou com Juventus, FC Bruges, Bayern Munique, Paris Saint Germain e Athletic Bilbau...

Em vez de exaurir os titulares, a presença na Liga Europa permite, se eles tiverem qualidade para tal – e os do FC Porto tinham, ao contrário dos do Ajax – fazer crescer os suplentes, hoje encarados como alternativas bem mais válidas do que há nove meses. Há uma razão para que só dois dos oito campeões portugueses mais recentes tenham jogado Champions após o Natal – aconteceu ao Benfica de 2023 e ao Sporting de 2025. E para que ambos tenham caído com a passagem de ano. O FC Porto fez 53 jogos de competição esta época, menos três do que o Sporting e menos dois do que o Benfica, mas tem apenas três futebolistas acima de 3.500 minutos em campo: Diogo Costa, Froholdt e Bednarek. Nos Leões, eles são seis: Trincão, Rui Silva, Suárez, Hjulmand, Inácio e Maxi Araújo. E nas Águias sete: Dahl, Trubin, Otamendi, Pavlidis, Aursnes, Ríos e Dedic. Depois, em contrapartida, além dos sobrecarregados, o FC Porto tem mais 14 homens acima dos 1.500 minutos de jogo, enquanto que o Sporting só lhes soma mais dez e o Benfica apenas mais sete. A masterclass de gestão de plantel de Francesco Farioli passou em grande parte pela capacidade que o treinador teve de ir mudando seis, sete, oito titulares de domingo para quinta-feira. E isto não é crítica nem diminuição de mérito. É, sim, o reconhecimento de que o italiano fez o melhor com as condicionantes perante as quais tinha sido colocado.

Os empates do Sporting com SC Braga, Benfica e Gil Vicente, este mesmo no final da primeira volta, permitiram ao FC Porto chegar a meio campeonato com sete pontos de vantagem para o segundo lugar – e dez para o terceiro, que era o Benfica. E aí entraram em ação outros dois fatores importantes nesta conquista. Um deles foi o mercado de Inverno. E o outro a gestão emocional do grupo face ao decréscimo do avanço. Um dos reforços de Inverno, Pietuszewski, foi fundamental na conquista da vitória em Guimarães, à 18ª jornada: um 1-0 conseguido de penalti sofrido pelo jovem extremo polaco. Pietuszewski viria a ser o farol de criatividade no ataque do FC Porto, juntando-se às cavalgadas de Froholdt com bola e aos passes com olhos de Gabri Veiga (muitos deles em bolas paradas) como os maiores argumentos do campeão no momento ofensivo. Outro reforço tardio, o experiente médio Seko Fofana, tornou-se também preponderante noutros três momentos de uma segunda volta sempre no limite. Primeiro, foi dele o golo no empate caseiro com o Sporting (1-1), logo no início do Fevereiro. O Clássico foi a resposta à inesperada derrota com o Casa Pia (1-2), encaixada uma semana antes, mantendo nos quatro pontos a vantagem para os Leões, inexplicavelmente satisfeitos com o impasse e aparentemente pouco interessados em jogar o tudo por tudo no confronto direto. Depois, Fofana apareceu nos 3-1 ao FC Arouca, já no final desse mês: foi ele que sofreu o penalti salvador, a desfazer o empate ao minuto 90, após duas vitórias pela margem mínima terem lançado a dúvida no plantel. Por fim, depois do empate na Luz com o Benfica, um 2-2 suado que se sucedeu a uma primeira parte afirmativa e a uma vantagem de dois golos ao intervalo, Fofana ressurgiu no final de Março, marcando o golo da vitória, de virada, em Braga, um 2-1 que permitiu manter em sete pontos, com mais um jogo, a vantagem sobre os bicampeões.

Mas o verdadeiro teste à solidez do campeão estava por vir. Foi depois do empate caseiro com o FC Famalicão (2-2), à 28ª jornada, já em Abril. O Sporting ficava a cinco pontos, mas tendo em atraso a receção ao CD Tondela. Foi aí que fez sentido falar no desmoronar emocional do Ajax de Farioli. Estaria o italiano em condições de garantir a solidez da equipa face ao medo cénico de ganhar? A primeira resposta, no Estoril, foi boa: 3-1. Mas nunca o saberemos, pois antes de o FC Porto poder eventualmente ceder, foi o Sporting que estoirou. O bicampeão foi batido em Alvalade pelo Benfica (1-2), na ressaca da eliminação da Champions, pelo Arsenal, e entrou em panne emocional e física, tornando-se incapaz até, depois, de vencer os dois últimos, o já despromovido AFS e o CD Tondela. O FC Porto fez o que lhe competia e garantiu o campeonato com duas jornadas por disputar. Não foi a equipa mais espetacular, não teve o melhor ataque nem sequer o segundo melhor, mas sobreviveu a uma época em que ficou sem as duas primeiras escolhas para a posição de ponta-de-lança – Samu em Fevereiro e De Jong logo em Setembro – e foi, sobretudo, a equipa com melhor aliança entre uma ideia e um grupo de jogadores. E isso costuma ser meio caminho andado para ganhar.

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