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Farioli passo a passo

 

16h47 CET

27/03/2026

Há um ano, quando libertou a equipa do Ajax para as datas FIFA de final de Março, Francesco Farioli vinha de um complicado empate com o AZ Alkmaar (2-2, depois de estar duas vezes a perder) e preparava-se para o jogo do título, com o PSV Eindhoven, no regresso dos jogadores das seleções. O italiano tinha aprendido com os erros de Nice e, em vez de esmifrar a equipa na vertigem física do futebol que escolheu, começara a rodá-la, sacrificando, inclusive, a Liga Europa, onde ela não resistiu à rotatividade e acabou eliminada pelo Eintracht Frankfurt, nos oitavos-de-final. Mas mantinha a energia e o foco na Eredivisie. A vitória contra os campeões nacionais (2-0), no último dia do mês, viria a deixar o Ajax nove pontos à frente, à falta de sete jornadas. O resto da história não foi feliz, mas isso não quer dizer que tenha de se repetir. O método, como o técnico, não é infalível, mas este FC Porto também não é aquele Ajax. E o que há a fazer nesta altura não é tanto buscar a repetição mas descobrir a divergência e avaliar se nela se encontram razões para crer na melhoria. E tudo indica que sim, ainda que não pela razão mais repetida, que é o reforço do plantel em Janeiro.

Se a falência do OGC Nice foi sobretudo física, motivada pela incapacidade de um plantel curto para manter o rendimento na exigência de alta voltagem permanente que traz o futebol de Farioli, a do Ajax já foi mental. O futebol de Farioli, que no seu auge de rendimento é feito de pressão e aceleração permanente mas não é nem nunca foi muito forte em jogo posicional ou ataque combinativo, exige muito do pulmão e do músculo. E o treinador italiano percebeu, de Nice para Amesterdão, que não podia recorrer a esse futebol com jogadores incapazes de manter a dimensão física no topo da exigência. Por isso mesmo, de 2023/24 para 2024/25 meteu no plano a rotatividade. O mês de Março de 2025 dele foi, de certa forma, a antevisão do Março de 2026, em que andou a rodar oito titulares de jogo para jogo. A equipa chegou viva à pausa FIFA, com seis pontos de avanço do PSV, vantagem que alargou para nove logo a 30, no clássico de Eindhoven, onde se impôs por 2-0. 

Até final da época, já fora de todas as provas à exceção do campeonato, o Ajax teve sempre semanas limpas. O fracasso final, portanto, não se deveu a questões físicas. Foi mental. Na busca das razões que o motivaram o treinador italiano terá identificado um par delas, pelo menos. E, se está a pensar na profundidade do plantel e no papel que estão a desempenhar este ano os reforços de Janeiro, pois deixe que lhe diga que está enganado. Não acerca da importância de Thiago Silva, Fofana, Pietuszewski e Moffi, que ela é inquestionável – sobretudo a do médio marfinense e a do extremo polaco. Mas sim, está enganado se neste lote de reforços procura aquilo que mudou do Ajax para o FC Porto. É que a entrada destes jogadores acaba por ser ainda a resposta ao problema de Nice e um passo em frente no que toca à garantia de profundidade do plantel, a permitir-lhe não deixar objetivos para trás. Mas não é disso que se trata, porque apesar de tudo não foi isso que lhe faltou em Amesterdão. 

A falta de segundas linhas à altura custou ao Ajax a eliminação da Liga Europa – enquanto que o FC Porto seguiu em frente, com duas vitórias sobre o VfB Estugarda. E sim, essa eliminação pode ter tido efeito nefasto na moral da equipa, levando-a a acreditar menos em si mesma, enquanto que o apuramento do FC Porto também pode ter reforçado o sentimento positivo do grupo acerca da sua própria força. De qualquer modo, isso só as semanas que aí vêm nos dirão. Aquele Ajax tinha nove pontos de avanço a sete jornadas do fim, tinha ganho todos os jogos contra o PSV Eindhoven e o Feyenoord, e no entanto sofria de falta de autoestima. Se isso resultou da eliminação europeia ou se as razões eram mais profundas ninguém que não tenha estudado a coisa por dentro saberá dizê-lo com propriedade. E a verdade é que, perante o falhanço, Farioli, que era a quem primeiro competia compreender-lhe as razões, não mudou a base de composição do grupo no que a hábitos de vitória diz respeito. 

Sim, em Janeiro chegou Thiago Silva, oito vezes campeão nacional, entre França e Itália, além de ter ganho a Champions e um Mundial de clubes. O brasileiro pode ser importante nesta matéria, na busca de elementos mais experientes, titulados e invulneráveis à dúvida. Mesmo tendo sido uma vez campeão inglês e conquistado uma Champions e um Mundial de clubes também, Henderson, o seu equivalente no Ajax da época passada, estará sempre ligado ao longo período de jejum do Liverpool FC e entrará na história com um palmarés muito abaixo do que valeu como jogador. Mas, tirando isso, a comparação do onze-base do Ajax da época passada com os onze mais utilizados no FC Porto desta época mostra mais troféus para os de Amesterdão. Estarão os portistas à altura quando se lhes colocar pela frente o medo cénico de ganhar? 

A resposta será dada na ponta final da época, mas à partida parece um erro achar que Farioli não mudou nada de 2024/25 para 2025/26. Mudou, antes de mais, o clube a que empresta a sua competência – e a adequação que ele próprio fez ao DNA do emblema. Um dos grandes problemas do Ajax de Farioli foi o facto de contradizer de uma forma profunda aquilo que era o DNA do clube. Há um ano, sobretudo depois de ter saltado fora da Liga Europa, o plantel dos Lanceiros era todas as semanas confrontado com acusações de “traição” ao futebol de ataque que é imagem de marca do clube desde os tempos de Cruijff. Em Portugal, isso nunca chegou a ser um problema, logo à partida porque em Portugal os ex-internacionais e os outros comentadores com influência no espaço mediático não discutem futebol. Em Portugal, o debate futebolístico faz-se à volta das arbitragens e dos jogos de poder na Liga ou no Conselho de Disciplina, pelo que pouco importa se o futebol escolhido pelo treinador do FC Porto é ou não consentâneo com o que para ali levou Pedroto, com o que permitiu a Mourinho ganhar a Champions de 2004 – e aqui já há mais semelhanças, na pressão e aceleração – ou com o que deu a André Villas-Boas o pleno de 2011.

Há muito mérito de Farioli e da administração do FC Porto na posição que a equipa ocupa neste momento. A definição de um plantel capaz de casar na perfeição com as ideias do seu treinador não é fácil e neste caso parece ter sido conseguida na perfeição. Mas, depois de em 2024/25 ter introduzido a rotatividade como resposta ao falhanço de Nice, a novidade que a aprendizagem levou o treinador italiano a introduzir este ano para evitar o claudicar com que acabou a experiência de Amesterdão foi, sobretudo, a escolha de um ambiente onde as suas opções ideológicas e estéticas não fossem postas em causa. A este respeito, os neerlandeses e os franceses que o acompanham há mais tempo tiveram até dificuldades em reconhecer o Farioli que conheciam no treinador capaz de se queixar de arbitragens e de mandar recados aos rivais. Isso, caro leitor, é aprendizagem. E faz parte do processo dialético de construção de um treinador campeão. Ou não fosse Farioli formado em filosofia.

 

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