17h08 CEST
30/06/2026
Uma das muitas expressões idiomáticas do inglês que não é traduzida à letra em português é o “back to square one”. Este “voltar ao quadrado um”, nós transformamo-lo no “regresso à estaca zero” – e a verdade é que ambas as ideias se aplicam ao jogo da seleção nacional, frente à Colômbia, no forno húmido de Miami, a encerrar a fase de grupos do Mundial num segundo lugar que antecipa um duelo com a Espanha logo nos oitavos-de-final.
A equipa portuguesa foi suficientemente criativa para descobrir novos defeitos, mas a verdade é que esteve tão mal como na primeira jornada deste Mundial, o jogo com a RD Congo. O “quadrado um”, que só o desafio com os simpáticos usbeques mascarou, equipara-se ainda à “estaca zero”, porque zero parecem ser as hipóteses de este futebol nos levar longe na competição. Portugal podia ter ganho à Colômbia? Podia. E merecia? Nem pouco mais ou menos. A seleção nacional foi amplamente dominada, acabou com 46 por cento de posse de bola (38 por cento no último terço do campo), sensivelmente metade dos remates (13-24), um terço dos enquadrados (2-6) e se saiu do Hard Rock Stadium com a vitória de Pirro que foi a conquista de um ponto que não lhe dá mais do que o segundo lugar do grupo, foi porque Diogo Costa e os defesas-centrais assinaram noites exemplares.
O guarda-redes acabou com seis defesas, Renato Veiga impôs-se no duelo físico com o possante Cordoba e bloqueou quatro remates, Ruben Dias tirou no final a Suárez um golo feito, com um corte em cima da linha. Os três salvaram a equipa de si mesma e do que não era capaz de fazer. A seleção não era capaz de ter bola e de construir no meio-campo adversário bases consolidadas de ataque à área. Mas não era também capaz de encurtar os espaços dentro do seu bloco no momento defensivo, nem com as referências individuais de pressão que adotava no início das jogadas nem mais atrás, quando adotava um 4x5x1 relativamente baixo, mas onde James, Díaz, Jhon Arias e Puerta recebiam sempre à-vontade para combinar. E como para aí eram atraídos os laterais, a seguir os movimentos interiores dos extremos colombianos, não era, por fim, capaz de controlar as faixas laterais, sobretudo à esquerda, onde Santiago Arias surgia sempre como homem livre e pronto a meter a bola na área em vantagem.
É verdade que, vistas as coisas, Portugal também teve os seus momentos, como um remate de Bruno Fernandes que Vargas defendeu ou um vólei de João Félix após lançamento lateral rápido de Nuno Mendes, ambos ali perto do final da primeira parte, e que isso permitirá agora aos que preferem ver o copo meio-cheio dizer que a seleção até podia ter ganho o jogo. E lá vem mais uma vez o cântico de 2016. “Pouco importa, pouco importa; se jogamos bem ou mal; queremos é levar a taça; para o nosso Portugal”, recordam. Só que há enormes diferenças entre esta equipa e a de 2016.
Em 2016, Portugal praticava um futebol assumidamente defensivo, porque era para ele que estava talhada a maior-parte dos seus jogadores. Tinha um conjunto gregário, ao qual somava Ronaldo com menos dez anos e ainda a inspiração de Nani e Quaresma. A de hoje é uma equipa de filigrana, que não se dá bem a jogar longe da baliza adversária à espera de um esticão, com o futebol que Martínez escolheu para a levar ao objetivo. Se pode lá chegar? Pode. Mas eu vou acreditando menos a cada vez que a vejo jogar assim.
Costumo dizer que, para Martínez, Portugal não é Ronaldo e mais dez: é Ronaldo, Neto e mais nove. Pedro Neto foi titular nos três jogos deste Mundial, em quatro das seis partidas de qualificação – estava magoado na janela de Novembro – e nos dois desafios da Final Four da Liga das Nações, por exemplo. O selecionador apreciar-lhe-á a disciplina tática, que lhe permite usá-lo no momento defensivo como quinto homem atrás se lhe aprouver, e depois a velocidade com que ele leva a equipa para a frente em ataques rápidos e contra-ataques – velocidade que nem sempre é acompanhada pelos companheiros, aliás.
Neto, como Leão e em certa medida até Conceição e Guedes, são “ventoinhas aceleradoras”, que começam e acabam as suas jogadas: aceleram, travam e, se chegam às imediações da área, das duas uma, ou cruzam ou rematam. Para o que não se deve contar com eles é para um jogo mais ligado e combinativo, para ajudar a estabelecer a teia de passes que desequilibre os adversários – para isso estão lá Félix, Trincão ou Bernardo Silva.
Martínez tem procurado formar a linha de ataque com um jogador de cada um destes perfis: Bernardo e Neto contra a RD Congo, Neto e Félix frente ao Usbequistão e a Colômbia. Mas mais depressa reverte para o formato com as duas ventoinhas em estéreo do que para a utilização de dois atacantes mais combinativos. Contra a RD Congo e o Usbequistão acabou com Conceição e Leão, contra a Colômbia com Neto e Leão. É uma forma de desenhar futebol, pode trazer resultados, ainda que depois me pareça estar a entrar na “Twilight Zone” quando ouço o selecionador queixar-se de um jogo que foi muito partido e disso responsabilizar “as equipas sul-americanas” e não o facto de ele próprio sacrificar regularmente os atacantes que melhor podem colá-lo.
E depois há a questão Ronaldo. Se joga Ronaldo, já se sabe – não se fala de outra coisa. Como comentador, ou me acusam de ser demasiado brando com as exibições do capitão da seleção, de estar ali a branqueá-lo, ou de ser demasiado crítico com quem “já nos deu tanto”. Nenhum jogo deste Mundial me convenceu do contrário do que vou escrever: Ronaldo é um problema, sim, mas não pelo que faz ou deixa de fazer em campo. Acho que, futebolisticamente, a seleção tem questões que vão muito para lá das exibições de Ronaldo, questões que não se resolvem com a troca de ponta-de-lança.
A exibição do capitão contra a Colômbia foi pobre, mas não foi mais do que o reflexo final do pouco que a equipa jogou. Ainda assim, faz-me confusão que Gonçalo Ramos, ponta-de-lança capaz de convencer o Milan a pagar por ele valores em torno dos 70 milhões de euros, não tenha jogo na seleção, porque se convencionou que Ronaldo é indestrutível e tem de fazer todos os minutos de todos os jogos.
Ramos jogou sete minutos contra a RD Congo – e em dupla com Ronaldo, porque aquele era um desafio em que o selecionador achou que devia acumular os dois. De resto, nada. É que o capitão é um dos poucos jogadores do Mundial com 270 minutos em campo. Em Portugal, só ele, Diogo Costa, Renato Veiga e Bruno Fernandes. E esse é o principal problema, que são as contingências a criar. Ronaldo é uma espécie de dono da bola dos jogos dos campos baldios. “Façam as equipas como quiserem, mas eu jogo sempre e não vou à baliza”.