18h18 CEST
27/04/2026
O FC Porto pode ser campeão nacional já no sábado, desde que ganhe em casa ao FC Alverca, e a primeira coisa a dizer é que o desfecho é justo, porque os Dragões fizeram muitas coisas bem e foram a melhor equipa da Liga – e seguramente a mais regular. Os tempos de sucesso são geralmente inebriantes e, se há quem os aproveite apenas para festejar, também não falta quem os veja como validação extrema de tudo o que se fez. Desde que chegou à alta roda do futebol europeu, em Nice, há quase três anos, Francesco Farioli tem mostrado, não em palavras mas em atos, a capacidade auto-crítica que é a chave de qualquer evolução. O que o próximo Verão nos vai mostrar é se ele consegue continuar nesse trilho. Porque, como todos nós, o treinador do FC Porto tem dentro dele um Farioli muito bom, um Farioli bom, um Farioli mau e um Farioli muito mau. E, mesmo que ele diga que vai “absolutamente” continuar, só os dois primeiros servem para o futebol de alto nível. Seja numa Liga das Big Five ou até mesmo por cá.
O melhor Farioli é o Farioli que definiu muito bem como quer jogar. O italiano é um treinador com uma ideia, com tudo o que isso tem de positivo e negativo. Prefiro sempre treinadores com ideias estruturadas do que aqueles híbridos com grande capacidade de adaptação à nova realidade que encontram sempre que mudam de cores. O futebol de Farioli é o mesmo hoje que era em Nice e que foi em Amesterdão. O italiano ter-lhe-á, a partir de meio desta época, introduzido ligeiras nuances, como os movimentos à largura ou em apoio dos médios, porque Portugal lhe apresentou desafios diferentes do ponto de vista tático e, sem essa abertura de Froholdt para a linha ou esse recuo de Gabri Veiga, a mostrar-se ao jogo que vem de trás, teria sido bloqueado por adversários mais inteligentes e adaptativos do que a média europeia. Esta estabilidade da ideia foi a grande responsável pelo extraordinário acerto do FC Porto nos dois momentos de mercado que o clube fez com Farioli e na definição de um plantel que pareceu desenhado a régua e esquadro para aquilo que o treinador queria. A estrutura que acertou em cheio na esmagadora maioria dos 12 reforços contratados no Verão e, depois, nos quatro de Janeiro, é a mesma que na época passada falhou em toda a linha, gastando quase o mesmo dinheiro. O sucesso, aqui, está na adequação dos tiros a ideias consolidadas e, nisso, a crença de Farioli em processos que já vinha usando há anos terá sido fundamental.
O que isto não quer dizer, contudo, é que o treinador cristalize. Porque outro Farioli excelente foi o Farioli que percebeu que não pode matar os jogadores. Acontece muito a quem vê estas coisas de fora. “Os jogadores? Têm vida santa! Salários milionários, só trabalham de manhã, fazem um treino e passam os dias a jogar PlayStation”, dizem. Os treinadores que nunca foram futebolistas de alto nível mas que chegam jovens a grandes equipas tendem a escorregar para esse lado mais popularucho, a deixar-se influenciar pela visão demagógica, desvalorizando a fadiga central, o lado mental da exposição à alta competição de três em três ou de quatro em quatro dias. Foi assim que, mesmo sem ter UEFA, Farioli estoirou o plantel do OGC Nice, em 2023/24. Já não o fez na época passada, no Ajax, mostrando que tinha aprendido com o erro. E voltou a gerir bem o grupo este ano, no FC Porto, introduzindo a rotação extrema, com seis, sete, às vezes oito alterações de jogo para jogo, a partir de Fevereiro, quando o calendário apertou. É verdade que é mais fácil fazer isso na Liga Europa do que na Champions – e Farioli já o fizera na Liga Europa pelo Ajax e vai ter de o fazer com o FC Porto na próxima Liga dos Campeões, onde tudo fia mais fino –, mas essa foi a grande diferença entre o italiano e Rui Borges, por exemplo. O treinador do Sporting foi, este ano, o Farioli de Nice, porque não entendeu a tempo duas coisas. Uma era que estava a matar os titulares de cansaço. Outra era que, ao mesmo tempo, estava a matar os suplentes de inatividade. Ao contrário do que pode parecer em função da evolução que as coisas tiveram ao longo do ano, o plantel do FC Porto não tem mais profundidade do que o do Sporting. A questão é que se um cresceu com o decorrer da temporada, o outro minguou.
Ora tudo o que fica exposto atrás é um manifesto às vantagens da auto-crítica. E a olhar para o FC Porto deste ano, onde a auto-crítica pode chegar é ao valor-entretenimento do futebol que a equipa joga. É certo que a ganhar tudo se perdoa e que aquilo que os adeptos querem é chegar ao fim e ter mais pontos do que os adversários. Ninguém vai queixar-se enquanto vibra de entusiasmo nos Aliados. Além de que, dir-me-ão, “se o treinador não mudou quando não ganhou, por que razão há-de agora mudar a ganhar?”. E certamente têm razão: o FC Porto de 2026/27 vai provavelmente continuar a jogar este futebol lento em posse, de central para central, à espera de uma aberta em que muda a velocidade de forma repentina, de pressão no momento defensivo e de aceleração súbita na transição ofensiva. Foi sempre o futebol das equipas de Farioli, pelo menos desde Nice – na Turquia não acompanhei a ponto de saber caraterizá-lo. Mas era um futebol chato a perder, criticado pelos observadores neutros até quando o OGC Nice liderava a Ligue 1 e quando parecia que o Ajax ia ser campeão neerlandês, e continua a ser um futebol chato a ganhar, no momento em que o FC Porto vai vencer a Liga Portuguesa. E se a necessidade de mudar podia ser justificada pela questão do espetáculo, essa nem é, porém, a razão fundamental. É que a segunda volta, com adversários mais conscientes das maneiras de bloquear os Dragões, foi bem mais complicada de gerir do que a primeira. E o bom-senso manda achar que a próxima época seja ainda mais difícil do que foi esta segunda volta, a não ser que o FC Porto mude.
O Farioli promotor de espetáculo não foi, contudo, o pior dos Fariolis desta época. Esse foi o Farioli do discurso público, das aparições na sala de imprensa a envergar aquele casaco aos quadrados de José Maria Pedroto que Sérgio Conceição também vestia habitualmente. Isto até é, na ideia de muitos adeptos mais radicalizados, um elogio rasgado à atuação do treinador italiano, que finalmente terá assumido a identidade do clube, mas em 2026 já só devia provocar vergonha alheia. E a questão é que Farioli não era isto. Nunca foi isto. Dirão os tais adeptos mais radicalizados que nunca tinha sido confrontado com uma realidade como a nossa, onde, de tão desfavorecido, ao FC Porto só resta lutar “contra tudo e contra todos”, mas quem quer que use o cérebro em vez do coração percebe que isso é, apenas e só, política. E que houve sobretudo duas coisas que contribuíram de igual modo para a metamorfose que vimos em Farioli. Uma foi a chegada de Mourinho. A outra foi o receio de perder aqui, outra vez, como tinha perdido, em cima da meta, nos Países Baixos. Quando Mourinho voltou a Portugal, o discurso-médio do futebol por cá mudou radicalmente: as queixas acerca das arbitragens, que se faziam em surdina ou apenas nalguns momentos, atingiram níveis burlescos, recuperando a toxicidade de outros tempos e passando a fazer-se até nos dias em que se foi beneficiado, para prevenir. Acredito que esse condicionamento, depois, tem zero influência na arbitragem, que não é por se queixar mais que um clube passa a ter mais erros a seu favor e menos contra ele, que no final as contas equilibram, mas uma coisa é eu achar isso, aqui de onde me encontro, sem pressão, e outra, bem diferente, é um treinador achar a mesma coisa, quando tem de responder por resultados todas as semanas. Sobretudo quando, acima dele, o presidente também renegou ao longo desta época a oposição que fizera aos anos e às práticas do seu antecessor, assumindo o mesmo discurso do Porto-vítima que era a base do argumentário de Pinto da Costa.
Que Farioli venha, em 2025/26, falar de Calabote, é cómico, ainda que se perceba que apenas se limitou a fazer um agrado a quem está acima. Que tenha conseguido, nas quatro ou cinco vezes em que a sua equipa foi beneficiada por erros dos árbitros – e é normal que tenha sido, pois, como disse, noutras quatro ou cinco também terá sido prejudicada – gritar por injustiça, falando da zona cinzenta que estaria a ficar esverdeada, já foi patético. Que, por fim, num ano em que se vulgarizou essa coisa rasca que é os clubes fazerem queixa de jogadores dos rivais até em jogos nos quais não participaram, tenha falado como falou das lesões de Hjulmand e Gonçalo Inácio, após o clássico da Taça, isso já é demasiado triste para fazer parte do desporto. Por mais traumas que tenha carregado da época passada, é pena que o receio de perder tenha levado Farioli a entrar nessa zona sombria da qual agora lhe será difícil sair. Porque, por mais que entre os que o vitoriam isso seja um sinal forte de identidade, a equipa dele foi a melhor da época apesar disso e não por causa disso. E ele certamente podia ter ganho na mesma com outra classe e outra preparação para a modernidade. É que quero crer que o futuro do futebol não deve, não pode, passar por aí. Definitivamente não no estrangeiro, no futebol que conta, o das Big Five. E esperançosamente também não em Portugal, neste universo que muito ainda teimam em tentar devolver ao passado.