15h57 CEST
28/08/2026
O Benfica vendeu o passe de Amar Dedic ao Newcastle United por 35,9 milhões de euros e no negócio ainda garantiu que vai receber 17,94 por cento – que raio de número... – das mais-valias de uma futura transferência do lateral bósnio. O FC Porto alienou o passe de Rodrigo Mora à AS Roma e, entre empréstimo e venda, que se fará daqui por dois anos, receberá 50 milhões de euros – mas só 25 no imediato. Face a estes valores, não faltam sportinguistas insatisfeitos com os 39,3 milhões de euros que o clube garantiu por Trincão, antes dos objetivos, e incrédulos com a incapacidade para se resolver o dossier Pedro Gonçalves com celeridade. Os adeptos, que ainda por cima têm aquela parte curiosa de olharem para estas coisas com o coração – os jogadores do clube deles são sempre melhores e valem sempre mais... – tendem muito a encaixar as negociações na dualidade entre o valor do jogador e os milhões que o mercado traz por ele. Mas há muito mais neste ecossistema. É por isso que o negócio de Dedic é fabuloso e o de Mora pode ser bom, mesmo tendo em conta que o jogador parece valer bastante mais. E que para entender o que está a passar-se no Sporting é preciso ouvir Varandas justificar o que, à partida, parece absolutamente injustificável.
Peguemos nestes quatro exemplos: Dedic, Mora, Trincão e Pedro Gonçalves. Dedic é um lateral, tem 24 anos, foi campeão austríaco em 2021 (um jogo apenas, que ainda era um menino e até foi emprestado na época seguinte) e em 2023 mas, daí para cá, fechou a loja. O Red Bull Salzburgo deixou de ganhar, ele próprio não se impôs no Olympique Marselha, onde passou meio ano e, no Benfica, tendo ganho a titularidade a Bah, não fez uma temporada extraordinária – somou um golo e quatro assistências, nenhuma delas na Champions, em Liga que o Benfica acabou na terceira posição. São números baixos para um lateral de tamanha dimensão ofensiva, ainda por cima não particularmente valorizado na campanha da Bósnia no Mundial. No portal de mercado Transfermarkt, que como diz o outro “vale o que vale”, o simples facto de se ter reencontrado com a regularidade permitiu que a sua cotação subisse dos 13 para os 20 milhões de euros que lhe eram atribuídos quando era titular fixo da equipa austríaca que o revelou. Os 35,9 milhões de euros recebidos por ele são, por isso, uma espécie de milagre, tendo até em conta outro fator, que é o de o Benfica ter na lateral direita o maior excedente de qualidade deste plantel. Talvez o tivesse também na posição de ponta-de-lança, com a chegada de Durán, mas nem assim foi capaz de um negócio deste calibre por Ivanovic, emprestado ao RC Lens. Como o não fez com António Silva, que só rendeu na saída para o Bournemouth os 25 milhões por que estava avaliado no Transfermarkt e já caíra naquele portal dos 45 milhões de 2023 e 2024 em função da sua própria insatisfação, de ter perdido a titularidade e da aproximação do final do contrato, que o Benfica não soube renovar atempadamente. Os 35,9 milhões de euros recebidos por Dedic são, por isso, extraordinários sob todos os ângulos. Porque estão muito para lá do valor de mercado do jogador e porque, com Bah e Banjaqui em casa, o Benfica nem precisará de ir buscar um substituto.
O que os explica? Pode haver muitos aspetos, mas o fundamental parece-me mesmo ser uma enorme vontade de Matthias Jaissle, o novo treinador do Newcastle United, contar com o lateral que ele próprio lançou em Salzburgo. Depois, é verdade que os clubes da Premier League têm muito dinheiro para gastar. Mas nem por isso costumam deitá-lo pela janela, como se viu, por exemplo, nas dificuldades enfrentadas pelo Sporting para fechar a negociação de Diomande com o Nottingham Forest – por um defesa-central de 22 anos, bicampeão português e quarto-finalista da Liga dos Campeões, os Leões só conseguiram 40 milhões de euros, valor abaixo dos 42 que ele tem atribuídos no mesmo Transfermarkt. Aliás, desde Dezembro de 2023 que o marfinense anda ali entre os 40 e os 45 milhões. Quem não tem muito dinheiro para gastar são os italianos, pelo que o negócio de Rodrigo Mora chama a atenção. Até este momento, entre todos os clubes da Serie A, só houve uma mão-cheia de transferências acima dos 40 milhões (e duas foram opções de compra). Os 50 milhões da AS Roma por Rodrigo Mora são, por isso, um caso raro num mercado que está em retoma mais ainda muito longe da euforia dos anos 80 e 90 ou da primeira década deste século. E sim, antes que discutam o valor, argumentando que são só 25, serão mesmo 50 milhões, ainda que em duas tranches, porque a copropriedade agora definida deixa aos italianos a possibilidade de comprar o resto e ao FC Porto a hipótese de decidir vender, mesmo que o jogador fracasse.
E é aqui que entra a dimensão emocional da coisa. Mora é, provavelmente, o talento mais entusiasmante que o FC Porto produziu nos últimos anos largos. Não teve nunca tanta importância para o coletivo como Diogo Costa, mas é normal que haja um muito maior envolvimento emocional dos adeptos com um atacante do que com um guarda-redes, por mais que este seja decisivo e capitão de equipa. Mora ascendeu ao patamar dos 40 milhões de euros no Transfermarkt em Maio de 2025, depois da época com Vítor Bruno e Martín Anselmi, um ano catastrófico no plano coletivo, tendo depois estagnado na valorização em ano no qual o FC Porto já foi campeão nacional, simplesmente porque deixou de jogar com regularidade – e vá lá não ter desvalorizado... Depois de onze golos e quatro assistências em 2024/25, marcou apenas cinco vezes e passou para golo em mais duas em 2025/26, temporada na qual foi mais vezes suplente utilizado (23) do que titular (21). E devo dizer que estes números até foram, para mim, uma surpresa, que de cabeça achava que ele não tinha começado de início tantas vezes. Tendo o jogador só 19 anos, feitos em Maio, o mais normal é que se ache que bastava que ele começasse a jogar com mais frequência, que assumisse um papel mais preponderante dentro da equipa, para depois poder ser vendido por muito mais. É o que eu acho, porque acredito no potencial dele. No entanto, já todos vimos o suficiente do FC Porto de Farioli para percebermos que isso nunca iria acontecer. O caso da venda de Mora à AS Roma é um exemplo paradigmático de um negócio que é, ao mesmo tempo, bom e mau. É mau por se tratar do maior talento que o clube produziu, mas é bom porque ele não iria ser útil – e aqui não se trata de haver um mau relacionamento entre ele e o treinador, mas tão só de ele possuir caraterísticas incompatíveis com o modelo que este emprega (e, ainda por cima, um modelo vencedor).
Os casos mais complicados de explicar são os do Sporting, onde Frederico Varandas fez neste Verão uma revolução. Já se esperavam as saídas de Hjulmand e Morita, o primeiro porque havia notícias de que era o ‘escolhido’ para sair este ano e alimentar a SAD com as necessárias mais-valias, o segundo porque há muito se sabia que não iria renovar o contrato. Mas aos dois médios juntaram-se mais uma série de titulares na porta de saída: Diomande, Trincão, Pedro Gonçalves, eventualmente Suárez e quem sabe se Catamo ou até Inácio. O que esta intervenção de fundo nos diz é que houve uma vontade do clube mudar – e são as razões por trás desse ímpeto de mudança que importa esclarecer para se avaliar este mercado. Foi, como o próprio Rui Borges já disse, porque “havia um certo acomodar”? Essa é a versão mais consistente com as duras palavras do presidente após a final da Taça de Portugal perdida contra o Torreense. Foi porque Rui Borges queria, por fim, iniciar o processo de construção de uma equipa de acordo com as suas ideias? Foi para limpar o balneário de resquícios de Amorinismo, não só nas ideias que a equipa revela em campo como, e se calhar sobretudo, nas fidelidades ao ex-treinador? O que importa entender é que, sendo importante para avaliar se a revolução foi bem ou mal conseguida, se era boa ou má ideia, a clarificação acerca das suas razões profundas, feita sem reservas, de viva-voz e não através da ativação de influencers nas redes sociais, já não muda em nada uma realidade. E esta é que a vontade de mudança profunda diminui em muito a capacidade que um clube tem para valorizar os seus ativos. Estejam eles melhor ou pior representados, os jogadores acerca de quem se sabe que o clube quer vender, já vão inevitavelmente ser pior vendidos.
E é isso que mais pesa neste momento no mercado do Sporting, por quatro razões. Logo à partida, porque fica difícil entender que isto fosse necessário. Depois, porque todas as vendas estão a ser feitas abaixo do valor de referência – basta comparar o que, quando não se suspeitava ainda desta debandada, o Sporting fez por Alisson, vendido ao SSC Nápoles por 16,5 milhões em Janeiro, quando o Transfermark ainda o avaliava em quatro milhões apenas, com o que conseguiu depois por Trincão ou Diomande, depois de se espalhar o rumor da liquidação total. De Diomande já falei atrás, mas também Trincão, 26 anos, 13 golos e 15 assistências na época passada (quatro e três na Liga dos Campeões) saiu 700 mil euros abaixo do valor de referência para o portal alemão. Em terceiro lugar, porque depois, sejam os jogadores mais bem ou mais mal vendidos, o que o mercado vê é o volume total. E como o Sporting já vai quase nos 200 milhões de euros em vendas, o que se espalha é que ali há dinheiro para gastar, pelo que as compras se fazem todas acima do valor de referência. Por fim, em quarto lugar, porque se podia ser duro nas negociações quando estipulou que só facilitava uma saída por ano – e no grupo isso era entendido, todos percebiam que tinham de trabalhar por esse direito –, a partir do momento em que alarga a porta Varandas tem muito mais dificuldades em dizer a este e àquele que não, não pode ir embora. Pois se os outros foram porque se deixaram acomodar, o que me impede a mim de me encostar também à bananeira? Como entendo que deixam ir aquele mas não me deixam ir a mim? É muito isso que está em jogo agora, nos dossiers de Suárez ou Catamo. E o que pode já ter estado nos de Pedro Gonçalves ou Bragança. Só para memória futura, o Transfermarkt avalia Suárez (38 golos e sete assistências em 2025/26) em 30 milhões, Pedro Gonçalves (15 golos e nove assistências) e Catamo (oito golos e quatro assistências) em 25 cada um e Bragança (seis golos e uma assistência) em 12.
Para a semana fazemos contas.