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O problema da Espanha

 

10h28 CEST

30/07/2026

Ferrán Torres em 2026 como Iniesta em 2010. A Espanha voltou a ganhar a final do Mundial pelo mesmo resultado, 1-0 após prolongamento, com o golo solitário a aparecer só depois de o adversário ficar reduzido a dez homens, após as expulsões do neerlandês Heitinga, na África do Sul, e do argentino Enzo Fernández, na América do Norte. Tanto agora como há 16 anos, a Espanha foi a melhor equipa da final e ganhou-a com toda a justiça. Minto. Desta vez, não foi só melhor equipa, foi mesmo escandalosamente melhor equipa, a ponto de o primeiro remate argentino ter surgido ao minuto 117 – e mesmo esse foi um cruzamento-remate, de Messi, que ia cruzar mas apercebeu-se que Unai Simon se adiantava para desfazer o cruzamento adivinhado e tentou meter-lhe a bola por cima, ao segundo poste. E, no entanto, a Espanha, justíssima campeã mundial, tem um problema. É que depois de um jogo de sentido único, um jogo em que, na verdade, foi a única equipa que jogou, pôs-se a jeito de deixar escapar o troféu, no segundo remate argentino, uma bola que sobrou no meio da área para o pé direito de Simeone, ao minuto 120+2 – e se tivesse ido ter com um tipo mais dotado, bastava que se tratasse de um Ferrán, que não é propriamente um craque geracional, teria acabado nas redes em vez de sair sobre a barra.

Tal como em 2010, quando só desbloqueou o jogo aos 116’, a Espanha esteve a um pequeno nada de deixar a decisão ir para penaltis, onde podia muito bem perder, porque como canta o Sérgio Godinho “a vida é feita de pequenos nadas”. Qual é o problema de Espanha, então? É simples. Nenhuma equipa que domina um jogo da forma que a equipa de Luis de la Fuente dominou a final de Nova Iorque pode fazer só um golo – e já no prolongamento – sujeitando-se a esses pequenos nadas. É uma questão de talento na posição específica de avançado? É uma questão estratégica, de investimento porventura excessivo em outras áreas do campo, o preço a pagar pela soma de unidades no meio-jogo, a forma que a Espanha escolhe para potenciar o seu domínio? É a aplicação prática do axioma popular “não podes guardar o bolo e comê-lo”? Afinal, é normal que se a Espanha abusa da presença de jogadores na zona de meio-campo e dessa forma controla o ritmo e a posse, depois não tenha tanta gente na área para fazer os golos. Todos jogam com onze... Mas não creio que essa seja a verdadeira questão.

A Espanha acabou os 90 minutos da final com 87 por cento da posse no último terço, 15 remates a zero e 23 ações na área a duas. É verdade que 23 não são muitas, que o domínio justificaria pelo menos umas 40, não fosse o futebol espanhol tão circular. Mas foram 23 a duas, uma de Simeone e outra de MacAllister – e digo isto para reforçar as duas. No final dos 120 minutos, os números ainda foram mais desequilibrados: 20-2 em remates, 12-0 em remates enquadrados (onze defesas de Dibu Martínez, segundo valor mais elevado de todo o Mundial), 1,94-0,20 em Golos Esperados, 31-6 em ações na área. A Espanha pode chegar pouco, mas chegou as vezes suficientes para construir um resultado que a deixasse ao abrigo de qualquer surpresa. O problema não foi, por isso, estratégico. Foi de talento nos últimos metros do campo. A diferença entre a Espanha de 2024 e a de 2026 esteve em Yamal, que há dois anos tomou o Europeu da Alemanha como seu e este ano estava frágil, a regressar de lesão, a ponto de não se destacar da mediania a não ser nalgumas receções que não enganam. E esteve em Nico Williams, seta vertiginosa de assalto aos últimos metros em 2024 e também ele limitado a ponto de só ter entrado a 20 minutos do fim na final. Felizmente para Espanha, ainda veio a tempo de ser decisivo.

É muito mais preocupante, ainda assim, o problema da Argentina. O maior problema da Argentina é que Lionel Scaloni assumiu premeditadamente a intenção de não jogar a não ser que isso fosse absolutamente necessário. Fê-lo sacrificando o talento de gente como Nico Paz ou Thiago Almada, já para não falar de Lautaro Martínez. A Argentina comportou-se na final como vinha fazendo nas anteriores eliminatórias, isto é, tentou reduzir o jogo ao seu mínimo denominador comum à espera de um lampejo de Messi para fazer a diferença. Scaloni entrou no Mundial como o pedinte de Eduardo Galeano, de chapéu na mão, a suplicar: “una linda jugadita, por amor de Dios!”. Só que, ao contrário daquele, o selecionador argentino até tinha voz ativa no que a equipa produzia. O que a Argentina foi mostrando quando tinha de ir atrás dos resultados permite-nos achar que poderia fazer mais e que se o não fazia era por falta de vontade. Que aquela opção constante pelos duelos, pela picardia, pelo ganhar de faltas para retardar o jogo, era consciente – e, de resto, sendo em contramão com o espírito deste Mundial, ela condiz com o vergonhoso comportamento de toda a equipa, quando esta, em bloco, virou costas à entrega do troféu.

A carreira de Messi, toda a história de Messi, merecia outra saída, porque o que se viu não foi perder com honra. Nem depois do jogo, com o tal gesto que muitos aplaudirão porque não entendem o que está em causa, nem durante, onde a Argentina simplesmente não jogou. Já vos falei acima das duas ações na área nos 90 minutos – acrescento agora que em todos os jogos do Mundial só houve um valor menor, que foi a ação única, isolada, do Qatar na área do Canadá no jogo da fase de grupos que perdeu por 6-0, ficando com dez aos 33’ e com nove aos 53’. A Argentina, na final, teve onze homens em campo até aos 90+3’ – se não jogou mais foi porque não quis, porque não sabe ou porque não conseguiu...

Scaloni tentou replicar a manobra da final de 2022, excluindo Paredes para dar a titularidade a um extremo, que há quatro anos foi Di María e desta vez foi Nico González. Quando a coisa não resultou, pensou-se que era porque Paredes fazia demasiada falta para a equipa ter bola. Depois, quando, na segunda parte, veio com o médio em vez do extremo, viu-se que não, que era porque Nico não é Di María – e porque Paredes fazia demasiadas faltas, isso sim. Anda a circular por aí um gráfico do Sofascore, mostrando que a diferença do rating médio de Maradona para o resto da equipa argentina de 1986 foi menor do que a existente entre o rating médio de Messi e o do resto da seleção em 2026 – e isto é brutal, porque todos os que vimos aquele Mundial temos a noção de que Maradona o ganhou sozinho. A Argentina não foi campeã porque, apesar de tudo, o seu problema é bem mais grave que o de Espanha. Só o tempo nos dirá se é de falta de talento ou de vontade de jogar.

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