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Futebol de direita e de esquerda

 

11h48 CEST

31/03/2025

Há uma passagem particularmente interessante na entrevista de Hans-Joachim Watzke ao The Guardian. Diz o homem que é presidente do Borussia Dortmund há 20 anos – e que vai abandonar o cargo no final desta época – que acha que “o governo britânico gostaria de ter a regra 50+1 no futebol”. Para quem não sabe, a regra 50+1 estipula que, com exceções históricas, nenhum investidor externo pode ter mais de 49,9 por cento das ações dos clubes alemães. “Temos de decidir: queremos o turbo-capitalismo ou uma economia social de mercado? Na Alemanha, optámos por esta última, ainda que isso nos custe um pouco de tempos a tempos”, explica Watzke. O posicionamento do futebol alemão está em linha com a social-democracia europeia, mas o que o torna mais admirável é que ele mantém coerência política quando o mais chamativo seria que os responsáveis contorcessem os ideais em nome de uma promitente vantagem competitiva. Dizia Arrigo Sacchi que “o futebol é a mais importante das menos importantes coisas da vida” e o que se tira desta frase, que já foi atribuída a muitos outros, é que o futebol faz parte da vida de quem dele gosta. E que, portanto, não é possível estar nele de uma forma diferente daquela em que se está na vida, porque ao fazê-lo estaríamos a trair o nosso âmago.
Não tenho a pretensão de ditar o caminho correto, de proclamar que ele passa pelo mercado livre de intervenção, pela sobrevivência dos mais fortes, mesmo que ela implique o definhar de todos os outros, ou pela criação de regras e organismos reguladores capazes de defender a distribuição tendencialmente igualitária da riqueza. Pelo liberalismo selvagem que está a ganhar nos Estados Unidos, por exemplo, pelo comunismo que fracassou em todo o lado, com o exemplo máximo da União Soviética, ou pela tal economia social de mercado que serve de farol à social-democracia. Mas tenho as minhas convicções, tanto na vida como no futebol – e elas estão em linha com esta última corrente. Ora, se defendo o acesso tendencialmente gratuito à educação e à saúde ou os impostos progressivos, na linha de um estado social e da social-democracia europeia de que falava Watzke, então serei a favor, por exemplo, da centralização dos direitos audiovisuais das competições e de uma distribuição equilibrada da riqueza por elas gerada, utilizando o mérito como fator de diferenciação mas não de fronteira radical entre a prosperidade e a extinção. Se, pelo contrário, como sucede a muitos dos adeptos dos três grandes em Portugal, entendesse que o meu clube, porque tem uma maior quota de mercado do que os competidores, devia negociar os direitos audiovisuais de forma independente, fazendo valer acima de todos os valores a sua capacidade para se impor no gosto popular, teria de alinhar igualmente nas trincheiras dos que estão contra a proteção das camadas mais desfavorecidas da sociedade. A essas, só me restaria encará-las com algum desdém e dizer-lhes: “Estudassem!”
Tenho mais dúvidas quando me falam em temas como a regra 50+1, porque o que está aí em causa já pode ser uma espécie de cartelização que do meu ponto de vista vai um pouco além do que é a função do regulador, mas esse é um aspeto a ter igualmente em conta. Quantos de vós acolheriam de bom grado um investidor multimilionário no vosso clube, na esperança de que isso levasse a uma escalada impactante na realidade competitiva do futebol europeu? Os adeptos do Chelsea não foram muito mais felizes depois de chegar o dinheiro do oligarca Abramovich? E os do Newcastle United não celebraram como loucos a interrupção de 70 anos de jejum de títulos devida em parte aos petrodólares do Fundo Soberano da Arábia Saudita? Não é o futebol italiano feito desde a década de 60 do século passado da associação de clubes a famílias de industriais que deles faziam uma bandeira de prosperidade? Qual a diferença entre o Milan de Silvio Berlusconi e o de Gerry Cardinale? Não querem ambos a mesma coisa, que é ganhar? É evidente que há aqui uma questão de princípio, a de se saber se o dinheiro é limpo ou se a sua disponibilização faz parte da lavagem da imagem de um regime ou de uma atividade ilícita – e sim, esse devia ser um tema a ter mais em conta.
O que está em causa não é também, não pode ser, se se trata de dinheiro nacional ou estrangeiro. Mas muitos adeptos vacilam nesta barreira à conta do medo de que o investimento acabe por dar para o torto por não haver sentimento de pertença, advogando uma barreira aos investidores desenraizados. Mas seriam eles a favor dessa barreira se se tratasse de salvar qualquer outra indústria, uma panificadora, uma fábrica têxtil ou de calçado? Já houve clubes portugueses – e o Belenenses é o mais emblemático de todos – a terem de recomeçar do fundo da escada devido à entrada de investidores que correu mal. Mas podia ter corrido bem. Houve outros casos em que as coisas resultaram. O que está aqui em causa, para mim pelo menos, não é tornar os grandes mais pobres para se equipararem aos outros. É permitir a todos o acesso à riqueza. Não posso ser a favor do incremento da mobilidade social e depois travar essa mobilidade na pirâmide competitiva do futebol. Defendo uma Superliga europeia, porque entendo que o paradigma em que vivemos já é mais europeu do que nacional, mas uma Superliga à qual todos possam aceder na base do mérito desportivo. Uma Superliga que permita aos clubes que estão em mercados mais pequenos, como o nosso, partilhar um mesmo mercado de base com aqueles que integram realidades nacionais mais fulgurantes. E defendo uma Superliga que depois partilhe parte dos seus ganhos com a estrutura de base da pirâmide, o que a separará de um decalque puro do liberalismo mais selvagem. Estou no futebol da mesma forma que estou na vida. E convido-vos a todos a avaliarem se a cegueira clubística não está a afastar-vos de princípios que têm como sagrados para muitas outras áreas de que se faz o vosso dia-a-dia. Porque, lá está, o futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes da vida.

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