10h56 CET
03/02/2025
A quarta derrota consecutiva do FC Porto, com o Olympiakos (0-1), a igualar uma trágica série que não se via no Dragão desde 1964, levou o presidente André Villas-Boas à sala de imprensa, na tentativa de aspirar na sua direção os cacos do projeto desportivo com que iniciou a época antes de lançar uma reconstrução radical, entregue ao perfil diferenciado do argentino Martín Anselmi. Villas-Boas não deixou de apresentar atenuantes, como o facto de que a vitória que a equipa não conseguiu, na Choupana, no segundo jogo desta sequência fatídica, ter podido dar-lhe uma liderança da Liga que ela já não saboreia “há mil dias”. E ainda que esta referência à duração da seca não tenha sido inocente, porque o presidente nem um ano tem ainda de liderança, não chega para afastar do horizonte todos os erros cometidos na génese de um processo que de fácil não tinha nada. André Villas-Boas apanhou uma equipa descapitalizada, é certo, cofres depauperados, é verdade, mas não foi exemplar – longe disso – nas primeiras medidas de choque, que foram a contratação do treinador e a reconstrução do plantel. A guinada que protagonizou parece prometedora, mas aquilo que se viu em Belgrado contra o Maccabi prova que ela é ao mesmo tempo tão radical que apresenta riscos de piorar antes de melhorar. “Este é um tempo de reflexão, de paciência”, disse Villas-Boas. E é precisamente aí que estão as ideias fundamentais para o FC Porto.
“Isto só tem um responsável, que sou eu”, afirmou o presidente portista depois da derrota que tornou impossível o apuramento direto para os oitavos-de-final da Liga Europa e deixou para a última jornada a confirmação de uma vaga no playoff. Claro que a responsabilidade é de quem lidera, mas a frase não deixa de ser uma tentativa de livrar toda a gente que vai ter de trabalhar na reconstrução de eventuais efeitos nefastos que sobejem deste período negro, a começar por Andoni Zubizarreta, o diretor desportivo, que provavelmente será – até por afinidades de idioma – fundamental na colaboração com o novo treinador. Para concluir que a equipa do FC Porto estava em decadência, fruto de um conjunto de decisões de mercado – renovações, contratações... – retrospetivamente tomadas no médio e longo prazo, bastará olhar para as classificações da Liga. Campeões em 2022 com 91 pontos, os dragões foram segundos em 2023 com 85 e terceiros em 2024 com 72. O FC Porto fez na última Liga menos 19 pontos do que há dois anos. Somando os últimos dois campeonatos, obteve menos dez pontos do que o Benfica e menos sete do que o Sporting. Quando Villas-Boas chegou, aquilo que encontrou já não era a maior potência futebolística conjuntural deste país. Só ele e a equipa que acompanha poderão explicar em que medida é que a tentativa de reconstrução original foi afetada pelas dificuldades financeiras – correntes e prospetivas – mas a verdade é que ela fracassou. Vítor Bruno já foi despedido, depois de uma série de avanços e recuos no plano de jogo e, sobretudo, de uma flagrante incapacidade para liderar o grupo sem evitar desagregações de gente importante. E mesmo a reconstrução do plantel começa a soar a tiro ao lado.
No dia em que começou o campeonato, fiz, como faço sempre, uma previsão de classificação final. No texto, que antecedeu em três semanas e picos o fecho do mercado de Verão, escrevi que era “um risco” colocar o FC Porto entre os favoritos à vitória final na competição. Depois chegaram Nehuén Pérez, Francisco Moura, Tiago Djaló, Fábio Vieira e Samu – se bem que também saíram Francisco Conceição e Evanilson, a somar a Pepe e Taremi – e a coisa, somada à eclosão do talento de Rodrigo Mora, parecia poder compor-se. Apesar de amplamente inferior nos confrontos diretos com Benfica e Sporting, o FC Porto ganhara todos os jogos aos mais pequenos e colocara-se em situação de aproveitar a implosão que o Sporting conhecera com a deserção de Ruben Amorim. Podia tê-lo feito, assumindo a liderança na Choupana, com uma segunda volta pela frente na qual iria receber os outros dois candidatos e já não lhe faltava ir a Guimarães, aos Açores nem a Moreira de Cónegos. Mas aí e, depois, em Barcelos se perceberam várias coisas. Que Nehuén Pérez, afinal, é penalizado por um rendimento errático. Que Fábio Vieira está longe do jogador que desequilibrou na Liga de 2022. Que Samu deixa a desejar na ligação com a equipa e que só vale mesmo na área. Que Mora ainda não pode levar o emblema às costas, pois só tem 17 anos. Que Galeno perdeu fulgor – ou não é aquilo que se quis ver nele. E que, ainda por cima, houve gente a saltar fora da carruagem – ou a ser posta fora, que é o que falta determinar – como Varela, Pepê ou Ivan Jaime. José Tavares, o interino que liderou a equipa na derrota com o Olympiakos e no empate com o Santa Clara, retrocedeu nalguns destes casos de alienação de ativos, como os de Pepê ou Varela, mas nem um nem o outro devolveram, pelo menos para já, seja o que for de positivo à equipa.
Martín Anselmi pegou na equipa em condições de discutir os dois troféus que ainda estão ao alcance do clube, mas com as dificuldades a apertarem e a exigirem rendimento para ontem. A boa notícia é que o argentino é um treinador com ideias, dos que metem as equipas a jogar um futebol de autor. Viu-se isso no Independiente del Valle e no Cruz Azul. A má notícia é que o futebol de autor, que pode tornar-se muito mais temível do que o posto em prática por treinadores simplesmente adaptáveis, como se viu no último Sporting de Ruben Amorim, costuma exigir jogadores que encaixem nele na perfeição. E isso, além de dinheiro, consome tempo – como está a ver-se no Manchester United do mesmo Amorim. Daí que as palavras de André Villas-Boas, ganhem ainda mais importância. Sim, o plantel já não era fantástico e não, não só não havia fundos ilimitados para o melhorar como pelo meio se cometeram erros, pelo que também não se transformou numa máquina imbatível numa janela de mercado. Mas não é preciso enveredar por esta narrativa desculpabilizadora para se ver que o que está em causa na reconstrução que o FC Porto se prepara para encetar é mais do que o imediato. E para isso Villas-Boas precisa também de fazer mais do que aspirar os cacos daquilo que tentou construir e que já foi estilhaçado pela realidade. Precisa de convencer os adeptos a terem paciência. E a acreditarem que os erros do passado se transformarão nas decisões certas do futuro. É aí que está o desafio.