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E se de repente

 

17h12 CET

30/12/2025

A clubite cega as pessoas. Vemos isso todos os dias. Acontece muito, tanto em Portugal como no Brasil, por exemplo, acerca da Taça Intercontinental, o que até forçou a FIFA, em 2017, a equiparar formal e legitimamente os títulos ganhos nessa competição aos de um verdadeiro campeonato do Mundo de clubes. “O Palmeiras não tem Mundial”, gozam os adeptos de Santos FC, São Paulo FC, Grêmio, Flamengo, Corinthians e Internacional, os seis clubes brasileiros que venceram a Taça Intercontinental, ainda que três deles só o tenham feito no formato antigo. “O FC Porto foi bicampeão do Mundo”, clamam os portistas, adeptos do único clube português a vencer a prova, em 1987 e 2004. Agora, que até já tem um Mundial de clubes num formato bem diferente, mais justo e todo catita, a FIFA decidiu manter a realização da Intercontinental, cuja final opôs este mês Paris Saint-Germain e Flamengo. Ganharam os francezes, mas nem assim foram campeões do Mundo. E a FIFA não fez, no entanto, como a Federação Portuguesa de Futebol, que numa decisão justificada por estudos de validade duvidosa e aprovada em votação da Assembleia Geral pelos representantes das associações regionais, decidiu retirar aos vencedores do antigo Campeonato de Portugal o direito de serem retrospetivamente vistos como campeões nacionais. A FIFA tem muitos defeitos, da política às finanças, mas felizmente ainda não se deixa afetar pela clubite, o que permite que o FC Porto possa justamente continuar a envaidecer-se por ter sido duas vezes campeão do Mundo. Mesmo que tenha ganho uma prova até menos completa do que a agora vencida pelo PSG e, como vou demonstrar em seguida, este processo seja em tudo – repito: em tudo – semelhante ao da evolução do Campeonato de Portugal para a Liga.
Vamos lá então falar de factos, que em primeira análise são o que faz a história. Em 1960, a UEFA e a Conmebol, confederações continentais responsáveis pelo futebol europeu e sul-americano, decidiram criar uma competição que pusesse frente a frente os vencedores da Taça dos Campeões Europeus e da recém-criada Copa dos Libertadores da América. A prova não era oficial nem organizada ou sequer reconhecida pela FIFA, o que não impedia que toda a comunicação social – sobretudo a sul-americana – a ela se referisse como consagrando o campeão mundial de clubes. Estes factos, bem como o patrocínio da Toyota, que a organizou e pagou a partir da década de 70 no Japão como manobra de marketing e de expansão da marca para outros mercados, deixaram até a Taça Intercontinental em claríssima desvantagem face ao que tinha acontecido por cá com o Campeonato de Portugal. O Campeonato de Portugal começou em 1922, já organizado pela FPF, a Federação Portuguesa de Futebol, mesmo que na primeira edição para ele só tivessem sido convidados os campeões regionais das duas associações mais poderosas, a de Lisboa e a do Porto. O lote de participantes alargou-se logo à segunda edição, a de 1923, coisa que demorou muito mais a acontecer na Taça Intercontinental: só em 2005, um ano depois de o FC Porto ter batido o Once Caldas na última final reservada apenas aos campeões da Europa e da América do Sul, é que foram admitidos os campeões de África, Ásia, Oceânia e América do Norte e Central. A edição de 2005 mudou até de nome, passou a chamar-se Campeonato do Mundo de Clubes, mudou de formato, com uma fase preliminar e depois meia-final e final, e mudou nos direitos de admissão, com as entradas do Al Ittihad (pela Ásia), do Al Ahly (pela África), do Deportivo Saprissa (da América do Norte e Central) e do Sydney FC (pela Oceânia). Mudou tudo, portanto.
Em Portugal, as mudanças foram também acontecendo, como é normal. Começou por se alargar a participação no Campeonato de Portugal aos campeões regionais de mais zonas do país, depois às equipas mais fortes das associações mais poderosas, até que em 1935 se introduziu uma nova competição, o Campeonato da Liga. Em 1934/35, o calendário do futebol português passou a incluir três espaços: os campeonatos regionais até ao Natal, uma Liga jogada por jornadas pelos melhores das quatro associações mais fortes (quatro de Lisboa, dois do Porto, um de Setúbal e um de Coimbra) entre Janeiro e Março, e o Campeonato de Portugal, sempre jogado por eliminatórias e com direito de participação de equipas de outras associações regionais, de Abril a Junho. A razão para a introdução de um campeonato por jornadas foi a goleada (9-0) sofrida na época anterior pela seleção nacional frente a Espanha, no apuramento para o Mundial. Os espanhóis tinham um campeonato por jornadas, em que jogavam todos-contra-todos, e isso era visto como forma de lhes aumentar a competitividade, pelo que experimentámos fazer por cá o mesmo. Havia dúvidas de que, aumentando as distâncias das viagens, a prova pudesse ser viável do ponto de vista financeiro, única razão pela qual há hoje quem olhe para ela como uma prova “experimental”. Não o era mais do que qualquer competição que nasça, porém. E, durante quatro anos, o Campeonato da Liga e o Campeonato de Portugal foram coexistindo – são inúmeros os relatos que apontam este como o título mais desejado pelos clubes do país, contudo.
Só a posteriori, no entanto, em 1938, quando percebeu que o campeonato da Liga era um sucesso na adesão do público e, consequentemente, na viabilização económica, é que a FPF deliberou que aquele formato, a que passou a chamar Campeonato Nacional – renomeando o Campeonato de Portugal em Taça de Portugal, por lhe ver semelhanças com o formato da Taça de Inglaterra – ia designar o campeão nacional. Mas não se limitou a tomar a decisão para o futuro. Não. Decidiu também reescrever a história e fazer equivaler todos os títulos de campeão de Portugal até então disputados à Taça de Portugal, com a qual partilha o troféu. O tema, que era um dos favoritos de Henrique Parreirão, um jornalista veterano que cheguei a conhecer e que era dos mais entusiásticos pela história do futebol nacional, foi recentemente recolocado na agenda por Bruno de Carvalho, na altura presidente do Sporting, a reclamar para o clube o reconhecimento pelos títulos nos anos em que venceu o antigo Campeonato de Portugal. Opuseram-se a tal o Benfica e o FC Porto e a FPF, como Pilatos, lavou dali as mãos. Encomendou um estudo, apresentou-o à Assembleia Geral e deixou que fosse a maioria a decidir. Como se este fosse um tema suscetível de ser decidido por maiorias que há uns anos se especializavam em “chitos”... E, tal como um dia ainda veremos a Assembleia da República deliberar que afinal de contas Salazar até foi um democrata merecedor de um voto de louvor, a maioria da Assembleia Geral da FPF decidiu que o Campeonato de Portugal, afinal, não produziu campeões de Portugal. 
Na FIFA, o caminho foi semelhante, mas a decisão foi diferente. Em 2017, após um pedido de esclarecimento dos sul-americanos, a FIFA reconheceu como títulos mundiais de clubes todos os ganhos na antiga Taça Intercontinental, mesmo só tendo começado a organizá-la mais de 40 anos após a sua criação. Só nessa altura o FC Porto pôde dizer, com pompa e circunstância, que é o único clube português campeão do Mundo. E foi-o duas vezes, em 1987 contra o Peñarol, no meio de um nevão inacreditável, e em 2005 contra o Once Caldas, aqui nos penaltis. Em 2025, ano em que organizou o primeiro Mundial de clubes com um novo formato, a ser jogado de quatro em quatro anos por 32 equipas de todos os continentes, divididas em oito grupos de quatro, a FIFA decidiu manter, com periodicidade anual, a mesma Taça Intercontinental, na qual este ano participaram o Auckland City, o Pyramids, o Al Ahli saudita, o Cruz Azul, o Flamengo e o Paris Saint Germain, diretamente na final. Ganhou o PSG, mas não foi campeão do Mundo, da mesma forma que a Académica, vencedora da Taça de Portugal de 1939, não foi considerada campeã nacional – esse foi o FC Porto. Mas como, mesmo tendo muitos defeitos – e a cedência a regimes autocráticos, com cujas manobras de sportswashing vem colaborando é o maior de todos –, a FIFA está num meio maior, onde a clubite ainda não manda, nem por isso foi capaz da canalhice suprema, que é a de retirar títulos a quem os tinha conquistado no campo. 
Pelé, Cruijff, Platini, Beckenbauer ou Zico foram na mesma campeões do mundo de clubes. Mas os grandes craques da bola portuguesa dos anos 20 e 30 não podem ser vistos como campeões nacionais. E quem quer vê-los reconhecidos por isso é olhado de soslaio como estando apenas a replicar uma aldrabice lunática inventada por Bruno de Carvalho para enriquecer o palmarés de um clube. Bruno de Carvalho, como a FIFA, fez muitas asneiras. Mas nisto tem a razão do seu lado.

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