16h43 CET
03/02/2026
As proezas do Sporting e do Benfica na Liga dos Campeões, onde os Leões conseguiram uma vaga nos oito melhores, com 16 pontos em oito jogos, escapando ao playoff, e as Águias derrotaram o poderoso Real Madrid, de maneira a resgatarem um apuramento que as quatro derrotas nos quatro primeiros jogos pareciam tornar um sonho inatingível, trouxeram à tona a questão do dinheiro, da sua relevância na obtenção do sucesso desportivo e na estratégia mais avisada para a sua distribuição. O sétimo lugar do Sporting prova que é possível entrar nesse Clube do Bolinha formado pelos mais ricos do Mundo? Ou, tal como a vitória do Benfica se explica com uma fase conturbada do Real Madrid, ficou a dever-se sobretudo a um menor foco desses emblemas milionários, que daqui para a frente, quando começar a fase a eliminar, deixarão de vacilar?
Se cruzarmos a tabela final da Liga dos Campeões com os resultados do Money League, o estudo anual que a Delloite publica sempre em Janeiro, a detalhar as contas dos 20 clubes mundiais que mais faturaram na época anterior, encontramos coincidências extraordinárias. Sete das oito equipas que entraram diretas nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões estão no Top 10 das que mais faturaram em 2024/25. O Arsenal foi primeiro em campo e sétimo na receita, o Bayern Munique segundo em campo e terceiro na receita, o Liverpool FC terceiro e quinto, o Tottenham quarto e nono, o FC Barcelona quinto e segundo, o Chelsea sexto e décimo e o Manchester City oitavo e sexto. Há apenas quatro incongruências no cruzamento dos dados. Duas são ligeiras e fruto de incidências de jogo: o Real Madrid foi primeiro na receita mas caiu para nono no campo ao perder com o Benfica na Luz e o Paris Saint Germain, que foi quarto na receita, acabou em 11º no campo, fruto de uma derrota com o Sporting em Alvalade – e do empate com o Newcastle United no último dia, também. E depois há dois casos flagrantes de desvio, que são o Manchester United, a quem nem o oitavo lugar na Money League garantiu a entrada na Liga dos Campeões, e o Sporting, que foi sétimo em pontos mas não entra sequer no Top30 da Delloite.
Os Leões bateram em 2024/25 o seu recorde de receita num exercício, faturando um valor em torno dos 265 milhões de euros, mas a Money League não inclui transferências de jogadores, contabiliza apenas receitas correntes. E o valor da receita do Sporting sem transferências, em 2024/25 (cerca de 148 milhões de euros) fica muito aquém até dos 206 milhões do Brentford, que é 30º. Quanto mais dos 584 milhões que valem um lugar no tal Top 10 que praticamente monopoliza o lote de classificados diretamente para os oitavos-de-final da Champions. Daqui se tira uma conclusão, a do excelente trabalho que está a ser feito pelo Sporting na articulação do plano financeiro com o desportivo. E outra, que é a de que não podemos esperar isto com frequência – ou provavelmente sequer que se prolongue durante muito mais tempo. No ano passado, por exemplo, os oito primeiros da fase de liga da Liga dos Campeões – Liverpool FC, FC Barcelona, Arsenal, Inter Milão, Atlético Madrid, Bayer Leverkusen, Lille OSC e Aston Villa – apresentavam mais exceções relativamente ao Top 10 da Money League de 2025: estavam lá o Inter (14º), o Atlético Madrid (12º), o Aston Villa (18º), mas também o Bayer Leverkusen e o Lille OSC, que não apareciam sequer no Top 30. Nenhum resistiu nos oito primeiros lugares desportivos da temporada que se seguiu (a atual) e dois dos cinco (Lille e Villa) até foram parar à Liga Europa. Mais. Se em vez de olharmos para os oito primeiros da fase de liga, da qual há recuperação, olharmos para os oito apurados para os quartos-de-final, já com a fase a eliminar em curso e, portanto, sem remissão, os grandes acabam por se impor. No ano passado, lá estavam o Real Madrid (1º da Money League 2025), o PSG (3º), o Bayern (5º), o FC Barcelona (6º), o Arsenal (7º), sendo as exceções ao Top 10 das receitas o Borussia Dortmund (11º), o Inter (14º) e o Aston Villa (18º). Todos pelo menos dentro dos 20 mais ricos do Mundo. Há dois anos foi igual – ou ainda mais opressivo. Apuraram-se para os quartos-de-final o Real Madrid (1º da Money League 2024), o Manchester City (2º), o PSG (3º), o Barça (4º), o Bayern (6º), o Arsenal (10º), o Borussia Dortmund (12º) e o Atlético Madrid (15º). As únicas equipas de fora das Big Five a chegar aos quartos-de-final foram o Benfica de 2023 (24º da Money League desse ano) e o FC Porto de 2021 (última exceção ao Top 30 da Delloite a chegar tão longe).
As explicações para estas coincidências e para a convicção firme de que os quartos-de-final são, em condições normais, o máximo a que os nossos clubes podem aspirar, são simples. Primeiro, um clube português não pode gastar tanto como os mais poderosos, por exemplo, em salários. Em 2024/25, o Sporting gastou 87 milhões de euros em pessoal, o FC Porto apenas 81 milhões e mesmo o Benfica, que consegue entrar no Top 20 da Money League (é 19º, com 283 milhões de euros de faturação), ficou-se pelos 127 milhões. Um valor que, ainda assim, devia ser uma vantagem competitiva enorme na Liga Portuguesa, mas nem por isso se equipara ao que gastam os outros clubes do Top 10 europeu, todos situados entre os 300 e os 500 milhões de euros anuais em custos com pessoal. A outra explicação, que funciona de mão dada com esta, é a necessidade que os nossos clubes têm de vender jogadores – que depois, necessariamente, lhes enfraquece a qualidade das equipas. Recorrendo aos dados do Transfermarkt, a balança de transferências dos três grandes nacionais nos últimos cinco anos mostra algum desinvestimento consolidado. Isto é: mesmo tendo incrementado a sua capacidade para investir em jogadores entre os 20 e os 30 milhões, todos receberam mais em vendas do que gastaram em compras. O Sporting lucrou 126,6 milhões de euros entre o que vendeu e o que comprou, o FC Porto chegou aos 157,5 milhões e o Benfica, que foi de todos o que mais gastou, lucrou 269 milhões, porque vendeu quase tanto como os outros dois somados. Ora esta é uma realidade dificilmente compaginável com a necessidade de competir de uma forma reiterada com quem investe ao invés de desinvestir em cada mercado. Nos mesmos cinco anos, o Manchester City, por exemplo, investiu 460,1 milhões (ainda a diferença entre compras e vendas), o Liverpool FC chegou aos 487,8 milhões e o Chelsea atingiu os 757 milhões. E o fundamental é entender que tudo isto está relacionado: os clubes portugueses vendem porque o seu modelo de negócio passa pela valorização e venda de ativos, ao mesmo tempo que o fazem porque esses ativos têm vontade própria e a dada altura querem ir jogar para as Ligas a sério, testar-se semanalmente contra os melhores e ganhar salários ao nível dos melhores.
E é falacioso o raciocínio que diz que, se não se vender, as nossas equipas ficarão mais fortes, logo vão ganhar mais jogos e aumentarão as receitas, de maneira a, por um lado, poderem pagar melhores salários e convencer os jogadores a ficarem por mais tempo e, por outro, não precisarem de receitas extraordinárias vindas do mercado, porque as têm já de outras fontes. O Sporting, por exemplo, na época passada, recebeu 47 milhões de euros de prémios da Liga dos Campeões e este ano já garantiu mais de 60. Embora tenha até surgido num ano de desinvestimento, em que perdeu Gyökeres, o aumento de Prize Money, que foi superior a 30 por cento, podia suportar a ideia segundo a qual um investimento na equipa corresponderia a um aumento da receita, a uma espécie de círculo virtuoso exponencial e não interrompível. Mas as coisas não são assim. Os 47 milhões de euros que os Leões arrecadaram na época passada corresponderam a quase um terço da receita corrente que tiveram nesse ano. E não é possível gerir nada com um mínimo de segurança a contar antecipadamente com o facto de a bola entrar em vez de bater na barra, a ponto de ficar confortável em deixar esse aspeto responder por 30 por cento das receitas. A equipa que mais recebeu da UEFA em 2024/25, o Paris Saint Germain, que chegou aos 144,4 milhões, arrecadou assim apenas 17 por cento da sua receita total. Se perder um jogo aos 90’, como perdeu em Alvalade com o Sporting, a subsistência do projeto não está em causa.
Daí que, conclusão: o dinheiro é fundamental, mas depende muito de outras fontes de rendimento que, regra geral, os nossos clubes não têm grande facilidade a atingir: os clubes da Money League dependem bastante mais de receitas comerciais (48 por cento da faturação dos dez mais ricos) ou de TV (49 por cento dos colocados entre o 11º e o 20º lugar). E esse é que é o fator que vem baralhar os raciocínios mais simplistas. É que os nossos clubes, dê por onde der, não vão conseguir fazer crescer estes valores por mais bem que trabalhem nas áreas respetivas. Para o fazer, dependem sempre do ecossistema em que estão. Da Liga, portanto. E a verdade é que vamos continuar a ser dez milhões, face a 70 milhões de britânicos, 83 milhões de alemães, 59 milhões de italianos, 69 milhões de franceses e até 50 milhões de espanhóis. Disso, os clubes não poderão fugir a não ser quando partilharem o contexto, o ecossistema, com os grandes. Mas ainda não estamos verdadeiramente preparados para discutir os efeitos benéficos de uma Superliga.