17h18 CET
26/02/2026
Vinícius Júnior nunca me chamou racista. Na verdade, convenhamos, Vinícius Júnior nem faz a mínima ideia de quem sou, mas se lhe disserem que sou um dos 100 jornalistas que integram o júri da Bola de Ouro da France Football e que, em 2024, votei em Rodri e não nele para o primeiro lugar, talvez ele até acabasse por subscrever parte das centenas de mensagens que recebi depois, a insultar-me pelo voto. E sim, muitas dessas mensagens chamavam-me racista – entre muitas outras coisas que não vêm ao caso. Não me revejo nessa visão bipolarizada da sociedade que nos conduz ao insulto sistemático do dissonante, mas se há tema que deve levar-nos a fechar os olhos a excessos cometidos em nome da sua erradicação, esse tema é o do racismo, que carrega com ele séculos de insuportáveis abusos, de que devíamos envergonhar-nos. E é por isso que, passada uma semana de vergonha sobre o incidente entre Prestianni e Vinícius Júnior, acho que ninguém no Benfica entendeu que este não é tema em que possa haver a mínima suspeita de que se está do lado errado ou que a ele possam submeter-se interesses clubísticos.
Voltemos ao incidente e às imagens daquele par de minutos que já revi dezenas de vezes, de todos os ângulos disponíveis. Tenho a certeza de que Prestianni chamou “Mono!” [Macaco] a Vinícius? Não, não a posso ter. É por isso que não subscrevo a condenação sumária do jogador argentino e que tenho até algumas dúvidas acerca da tese que manda castigar com base em testemunhos de companheiros de equipa. Mesmo que ela já tenha sido aplicada no passado, por exemplo no caso entre Ondrej Kudela e Glen Kamara. Mas, adiante, que este caso vai muito para lá de Prestianni e de Vinícius. Que o argentino do Benfica não esteve bem, isso é evidente – ainda que falte definir quão mal se portou. Desconfio que coisa boa não disse, que para isso não teria tapado de forma repetida a boca para se dirigir ao adversário. Mas que o Benfica, na sequência, esteve mal, disso tenho a certeza absoluta. Muito mal, mesmo – e não é por não ter preparado convenientemente uma versão que cole. Não haverá lugar mais baixo na escada da dignidade institucional do que aquele de onde, face a esta questão, se apresenta um vídeo que tenta provar que nenhum jogador do Real Madrid podia ter ouvido o que quer que fosse, por estarem todos longe dos acontecimentos. E foi isso que o Benfica fez, como primeira reação, sem condenar sequer em abstrato o racismo, porque era disso que se falava, como se do ato humanista pudessem advir consequências graves para o seu jogador.
Entre uma defesa do humanismo ou a defesa de Prestianni – e teria podido defender os dois... –, o Benfica escolheu o seu jogador. Não foi ao ponto de difundir aqueles inqualificáveis vídeos do argentino a gritar “Hermano” [Irmão], num momento diferente, para sugerir que tenha sido isso e não “Mono” que ele atirara ao brasileiro. Mas uma semana depois ainda não se pronunciou, por exemplo, sobre o comportamento inqualificável de uma série de adeptos filmados nas bancadas a imitar comportamentos simiescos – e eles são perfeitamente identificáveis. O Real Madrid, na segunda mão, não esperou sequer pelo pontapé de saída para expulsar do estádio um adepto apanhado pelas câmaras a fazer a saudação nazi-fascista. Porque anormais há-os em todo o lado. Depois pode é haver mais ou menos decência na forma de os combater.
Dizem as notícias que Prestianni terá alegado que o que chamou a Vinícius foi “Maricón” [Maricas], mas no sentido de chorão e não de homossexual – que aí entraríamos numa nova, ainda que no meu ponto de vista menos grave questão de discriminação. Outras que o argentino respondeu ao insulto do brasileiro, que lhe teria chamado "anão". Da mesma forma que é claro, que o brasileiro não cobriu a boca quando lho gritou, que Vinícius chamou “Cagão de merda” a Prestianni. E é aqui que entra outro argumento já repetido vezes sem conta por uma série de comentadores que ainda não entenderam o que está em causa: “porque é que se pode chamar filho da puta e não se pode chamar macaco?”, alegam, ufanos de terem entendido que as duas coisas são insultos.
Não preciso sequer de invocar a parvoíce que é confundir o “chamar preto a um preto” com o chamar “macaco” a uma pessoa de pele escura. É que, além da desumanização que é inerente à segunda situação, e que foi uma das bases de todos os genocídios e da maior parte dos abusos do último século, pelo menos, estamos perante uma questão que tem uma história da qual não devemos orgulhar-nos. Um político que diga que “Isto não é o Bangladesh” está a enunciar um facto e a dar-nos a certeza de que é xenófobo e garganeiro, por não admitir aos outros as mesmas benesses de que os cidadãos do seu país já beneficiaram em tempos – e alguns não só continuam a beneficiar como depois votam nele... Um cidadão que chame “macaco” a um negro está a cavalgar a justificação para séculos de escravidão, suportados em teses supremacistas brancas. Que em vez de sentirem vergonha destas teses, depois haja quem as legitime em plena TV, no Portugal de 2026, é triste. Que esses vídeos sirvam para que as TVs internacionais propaguem a notícia de que “a televisão portuguesa defende Prestianni e critica Vinícius” já é revoltante.
José Mourinho, valha a verdade, não foi tão longe. Tive ocasião de elogiar, logo na terça-feira à noite, na RTP Notícias, o facto de ele se ter colocado ao meio da ponte. Ou melhor, de não se ter colocado de um só lado – que na verdade acabou por não se pôr exatamente ao meio. Mas logo na terça-feira à noite disse na RTP que, primeiro, era o que faltava que um jogador não pudesse celebrar um golo como lhe apetecesse, dentro dos limites; depois, que Mourinho, um provocador ao longo de toda a sua carreira, seria o último a poder condenar Vinícius por ter ido dançar na bandeirola após o golo; e, por fim e acima de tudo, que não é razoável ligar a celebração aos atos racistas que se sucederam – seja de Prestianni ou só dos adeptos. Culpar a celebração pelo racismo é como culpar a mini-saia pela violação. É o “pôs-se a jeito” que queremos erradicar da categoria das justificações para o que quer que seja. Invocar Eusébio – e eu também o invoquei na terça, antes mesmo de Mourinho ir à conferência de imprensa – não funciona, ao contrário do pensam muitos dos que o fizeram, como escapatória. É um incremento de responsabilidade. Um clube que tem a estátua de um moçambicano negro à entrada do estádio, que fez dele a maior figura da sua história, tem uma responsabilidade maior no combate ao racismo do que qualquer outro. Mas dizer que o Benfica não é um clube racista porque teve Eusébio é o equivalente do “eu não sou racista, que até tenho amigos pretos” ou do “eu não sou homofóbico, que até tenho um vizinho maricas”.
Ninguém chegou sequer ao ponto de insinuar que o Benfica fosse um clube racista, mas a pureza neste combate mostra-se travando-o. E foi isso que não fez o Benfica. E foi isso que não fez Mourinho, ainda por cima agravado com a constatação de que estas coisas acontecem sempre ao mesmo. “É sempre ele?! Há aqui alguma coisa que não me entra”, disse o treinador, na que pode bem ter sido a sentença definitiva em relação à possibilidade de vir a reentrar no Real Madrid. Ficou bem mais difícil...
Mas voltemos ao relvado da Luz. Não tendo a certeza de que Prestianni tenha, na verdade, chamado “macaco” ao rival, dei comigo a colocar a mim mesmo uma questão: o que ganhava Vinicius Júnior em inventar o caso? Em que é que o beneficiava o ato de ir a correr, de forma claramente emocional, ter com o árbitro para fazer uma acusação de racismo a Prestianni? Vinícius vive dentro de uma bolha de privilégio de que não beneficia a maior parte dos negros e isso permite-lhe ser um dos mais vocais combatentes do racismo no futebol internacional. Iria ele já com esta fisgada de casa, para ganhar adeptos para a causa? Caramba, o homem tinha acabado de marcar um golo do outro mundo e ia inventar a situação para tirar o foco da sua própria proeza? Não é coisa de jogador de futebol... Fá-lo-ia para acabar com o jogo, como se o Real Madrid estivesse – que não estava... – à rasquinha, a absorver um domínio clemente do Benfica? Também não me entra na cabeça essa hipótese. Por mais ativo que Vinicius seja na luta contra o racismo, por mais que esta luta às vezes faça vítimas colaterais sem culpa real, parece-me impossível que o brasileiro tenha inventado o caso – e, mais, que depois tenha voltado a jogar.
E aí me parece estar o erro de Vinícius, de Mbappé e do Real Madrid em geral. É que o árbitro não podia acabar com o jogo nem expulsar Prestianni, por falta de provas do delito, mas o ofendido não pode vacilar nestas questões. Da mesma forma que já tinha sido um dos mais ativos, em 2020, na noite de Liga dos Campeões em que o Paris Saint Germain e o Istambul Basaksehir abandonaram um jogo, porque o quarto árbitro, o romeno Sebastian Coltescu, se referira a Demba Ba, adjunto da equipa turca, como “aquele preto”, se ouviu de facto Prestianni chamar “macaco” a Vinícius cinco vezes, como disse ter ouvido, Mbappé devia ter sido irredutível e juntado de forma atempada a sua indignação à de Vinícius, recusando-se os dois a voltar ao jogo.
Posso apenas especular acerca das razões para esta contemporização Madridista. Poderia a UEFA castigar o Real Madrid com derrota administrativa? Podia, de facto. Mas dificilmente o faria. E tanto o Real Madrid como Vinícius e Mbappé teriam reforçado com o abandono a mensagem correta: não pode haver tolerância com racistas e outro tipo de trogloditas, nem que em causa estejam os resultados desportivos. Terá a continuação do jogo sido um gesto de bom-senso, de reconhecimento de que do outro lado estava um adversário igualmente grande e nobre? Talvez. Na flash interview em que se recusou até a enunciar o nome de Prestianni, chamando-lhe apenas “o número 25”, o próprio Mbappé teve o cuidado de separar os atos do argentino da instituição que é o Benfica e dos seus adeptos. O Benfica está lá em cima, no Olimpo da história do futebol, e não há como o maior de todos os clubes – o Real Madrid – para o reconhecer. Mais uma vez, contudo, isto não é justificação. É um acréscimo de responsabilidade. De uma responsabilidade a cuja altura o Benfica não esteve.
E isto, caro leitor, não tem nada que ver com o facto de Prestianni ter gritado o que quer que seja atrás de uma gola cobarde. Tem que ver com a forma como isso é tratado institucionalmente.